Sobre “Zelig” / About “Zelig”

“Zelig”, Woody Allen, 1983.

Hoje afasto-me um pouco da pintura mas não das artes visuais, no campo da representação e crítica. Recordo uma desaparecida amiga que por motivos profissionais passava largas temporadas em Nova Iorque. Ao saber da minha admiração por Woody Allen insurgiu-se, dizendo que nesta cidade vivem muitos outros judeus de humor e pensamento mais brilhantes do que o cineasta. Eu não contestei, em parte, porque não conhecia a cidade como ela, mas contestei dizendo que Woody Allen é um cineasta brilhante a seu modo.
E apesar dos seus filmes terem vindo a sofrer uma releitura à luz de movimentos feministas da actualidade, também contribuíram para dar a conhecer a culturalidade de uma fatia da sociedade americana tanto com admiração como com sentido crítico. E posso ainda dizer que algumas das minhas impressões sobre o carácter da universalidade humana se devem, em parte, a alguns dos seus argumentos e outros escritos do autor.
O cineasta trata as dúvidas existenciais ou religiosas, das suas personagens, com urgência e aflição. Dúvidas que se ramificam numa deontologia da alma humana; que compõem uma filosofia das emoções; que sonham com uma sociabilidade menos poluída; que personificam o pensamento abstracto.
Allen é também conhecido pelo sarcasmo, e até com uma certa insolência humorística, com que se dirige à comunidade intelectual, embora ele próprio nem se considere um intelectual. Na sua filmografia são comuns os conflitos íntimos do professor, do estudante universitário ou do escritor que tanto julgam estar na posse de verdades absolutas e incontestáveis, como se sentem agredidos na sua moral e ética. E neste contexto, tanto a certeza quanto a indecisão carregam consigo um fundamental problema espiritual ou ético, definidor de toda uma existência.
E isto leva-me a Zelig, para quem não está familiarizado, o documentário ficcional do cineasta Woody Allen, estreado em 1983. É um filme não só sobre o próprio fazer cinema, como também sobre a experiência americana e construcção de uma identidade. Zelig é “sobre um homem que se parece e age com quem está por perto, e conhece várias pessoas famosas.”
Seja um oriental, um grupo de médicos, um obeso, uma celebridade, etc. E é por isso considerado – diria que eufemisticamente – como um fenómeno, porque se transforma como um “camaleão humano”. E por isso também Zelig se torna numa sensação e numa celebridade ele mesmo, admirado, aplaudido e assistido por toda uma comunidade de peritos de áreas diversas.
Mas quando Zelig é ele próprio dá-se uma nova transformação pois revela-se um homem cruel. Zelig é tão simplesmente (ou complicadamente) uma pessoa que parece conseguir sobreviver apenas pela representação de outro. O que nos conduz à ausência de uma personalidade que é, em si, evidentemente, um problema existencial. Assim como a delinquência que inventa situações, porque na realidade não identifica o seu lugar no pequeno mundo que coabita. Zelig é portanto um usurpador de identidades, um intrincado problema de ética.
Mas o certo ou incerto é que as sociedades precisam de Zelig, porque tão simplesmente se sentem mais protegidas na igualdade do que na diferença. E talvez precisem mais do devaneio, que é como quem diz de ser enganadas. Neste documentário ficcional autores como Saul Bellow, Susan Sontag ou Irving Howe dão o seu testemunho sobre esta personagem, o que lhe atribui uma maior credibilidade documental e um maior sentido da comédia de costumes. Este é possivelmente um dos mais intrincados filmes de Allen, mensageiro de um perfeito enredo de eufemismos. Nem se trata exactamente de uma comédia pura mas sim de uma comédia negra dos tempos modernos.

Today I depart from painting, but not from the visual arts, in the field of representation and criticism. I remembered a missing friend who, for professional reasons, spent long periods in New York. Knowing of my admiration for Woody Allen, she arose, saying that in this city there are many other Jews of wit and brighter than the filmmaker. I did not answer, partly because I did not know the city as her, but I contested that Woody Allen is a brilliant filmmaker in his own way.
And although his films have been re-read in the light of current feminist movements, they have also contributed to the cultural awareness of a slice of the American society, both with admiration and critical sense. And I may say that some of my impressions of the character of human universality are due, in part, to some of his arguments and other writings.
The filmmaker deals with the existential or religious doubts of his characters, with urgency and distress. Doubts that branch into a deontology of the human soul; which make up a philosophy of emotions; who dream of a less polluted sociability; which embody an abstract thinking.
Allen is also known for his sarcasm, and even for a certain insolent humour, with which he addresses the intellectual community, although he does not consider himself an intellectual. In his filmography are common the intimate conflicts of the teacher, the university student or the writer who feel that they are in possession of absolute and incontestable truths, just as they feel attacked in their morals and ethics. And in this context, both certainty and indecision carry with them a fundamental spiritual or ethical problem, which defines a whole existence.
And this leads me to “Zelig”, for those not familiar, a fictional documentary, filmmaker Woody Allen released in 1983. It is a film not only about the making of movies but also about the American experience and the construction of an identity. “Zelig” “is about a man who can look and act like whoever he’s around, and meets various famous people.”Such as an Oriental, a group of doctors, an obese, a celebrity, etc. And he is, therefore – I would say euphemistically – regarded as a phenomenon because he transforms himself into a “human chameleon”. That is why Zelig becomes a sensation and a celebrity himself, admired, applauded and assisted by a whole community of experts from diverse areas.
But when Zelig becomes himself he gives himself a new transformation takes place because he turns out to be a cruel man. Zelig is so simply (or in a complicated way) a person who seems to know how to survive only by representing the other. Which leads us to the absence of a personality which is in itself, of course, an existential problem. Just like delinquency that invents situations, because, in reality, it does not identify its place in the small world where it cohabits. Zelig is, therefore, an identity usurper, an intricate problem of ethics.
But what is certain or uncertain is that societies need Zelig, because they simply feel more protected on equality than on difference. And it may also need the daydream more, that is, to be deceived. In this fictional documentary authors such as Saul Bellow, Susan Sontag or Irving Howe give their testimony about Zelig’s character, which gives it a greater documentary credibility and a greater sense of the comedy of customs. And this is possibly one of Allen’s most intricate films, a perfect messenger of euphemisms. This is not even exactly a pure comedy but instead a dark comedy of modern times.

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