Canova

Antonio Canova. “Amore e Psiche”, 1787-93. Museu do Louvre, Paris.

Leio que António Canova, em 1816, recebeu o título de Marquês de Ischia pelo seu contributo no resgate de obras de arte italianas levadas pelo Imperador Napoleão para França.
Canova consta ter sido um escultor sem descanso, envolvido intensamente com as obras que criou, e cuja entrega se torna tão evidente quando nos aproximamos das suas fogosas esculturas. Canova não abrandou o seu talento precoce. É um escultor que nos agarra pelo detalhe e o polimento com que trabalha a pedra. Com Canova é sempre o corpo que está em questão. O corpo que ele esculpe, liso e torneado, inspiração de uma arte clássica em que os físicos espelhavam a força de um atleta e a leveza dos etéreos que conhecem uma infinidade de factos sobre o sentido de todas as coisas.
Há ainda os cabelos que o escultor despenteou meticulosamente, os olhares que fez eternos e os enlaços de quem conhece o desfecho que os aguarda, e tudo isto é como que a projecção de um sonho ansioso, de uma tristeza a que sobrevivem ou de uma conjuntura que lhes é desfavorável. Amore e Psiche, Orfeu e Euridice  são exemplos de figuras que se encontram num lugar cujo tempo é contínuo. E tudo isto é uma outra coisa, quase distante de uma percepção mundana. E Canova mantém-se, por disciplina, um daqueles criadores que não pretende corromper o seu interlocutor, apenas absorveu a mesma força do mármore que se impõe.
Mas vamos então até Ischia. A viagem de barco faz-se também a partir de Pozzuoli, vila piscatória que conserva a imagem daquela que foi a mais famosa habitante, Sophia Loren. Daqui partimos de barco numa viagem com mais de uma hora via Procida, por entre rochedos e ilhotas que irrompem naquele mar Tirreno. Imagino por uns momentos o que seria viver num daqueles rochedos e como embarcar com arquitectos e engenheiros numa construção que integrasse a paisagem à maneira da Casa Kaufmann. Num desafio à altura de um Fitzcarraldo dos tempos modernos.
Chegados a Ischia é como se tivéssemos desembarcado num verso de Homero. Região do tempo contínuo, da maga erudição.
E pergunto-me afinal qual a relação do cosmopolita, celebrado e diplomata Canova com esta ilha tão singular? E leio agora que o Papa Pio VII o fez Marquês d’ Ischia, sim, mas Ischia di Castro, na província de Viterbo… E eu que tinha ficado entusiasmada com a ideia de termos Canova como Marquês deste pequeno encanto. Foi o regresso inesperado àquele porto de Pozzuoli de onde parti, via Procida, até Ischia, lugar que fixei no meu tempo como um dia que persiste sem insistir, sem exigências, por entre as singularidades de uma descomplexada cultura.

I read that Antonio Canova, in 1816, received the title of Marquis of Ischia for his contribution in the rescue of Italian works of art taken by Emperor Napoleon to France.
Canova is said to have been a tireless sculptor, intensely involved with the works he created, and whose delivery becomes so evident when one comes near to one of his fiery sculptures. Canova did not slow down his precocious talent. He is a sculptor who grabs us by the detail and the polish with which he works the stone. With Canova, it is always the body that is in question. The body he sculpts, smooth and turned, inspired by a classic art in which the physics mirrored the strength of an athlete and the lightness of the ethereal who know a multitude of facts about the meaning of all things.
There are still the hairs that the sculptor dishevelled meticulously, the looks he made eternally and the bonds of those who know the outcome that awaits them, and all this is like the projection of an anxious dream, a sadness to survive or a conjuncture which is unfavourable to them. Amore and Psyche, Orpheus and Euridice, are examples of figures found in a place whose time is continuous. And all this is something else, almost distant from a worldly perception. And Canova remains, by discipline, one of those creators who does not intend to corrupt his interlocutor, he has only absorbed the same force of the marble that imposes itself.
But let’s go to Ischia. The boat trip is also made from Pozzuoli, a fishing village that preserves the image of the most famous inhabitant, Sophia Loren. From here we set out on a boat for more than an hour via Procida, among rocks and islets that erupt in the Tyrrhenian Sea. I imagine for a moment what it would be like to live on one of those cliffs and how to embark with architects and engineers on a construction that would integrate the landscape in the manner of the Kaufmann House. In a challenge at the height of a Fitzcarraldo of modern times.
Arriving at Ischia it is as if we had landed in a verse from Homer. A region of continuous time, of an enchantress erudition.
And I wonder at last what is the relationship of a cosmopolitan, celebrated and diplomat Canova with this island so unique? And now I read that Pope Pius VII gave him the title of Marquis d’Ischia, yes, but Ischia di Castro, in the province of Viterbo … And I had been so enthusiastic about the idea of having Canova as Marquis of this little charm. It was the unexpected return to that port of Pozzuoli from where I left, via Procida, to Ischia, a place that I set in my own time as a day that persists without insisting, without demands, among the singularities of an uncomplexed culture.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s