Fait Divers

Claude Monet, “Nymphéas Bleus”, 1916, Musée d’Orsay, Paris.

Estávamos no auspício deste novo século, quando foi delegado a um concorrente televiso a incumbência de ler uma notícia ficcionada como parte de um jogo. A notícia tinha uma rasteira que parecia querer testar o concorrente no seu desconhecimento da expressão francesa e globalizada fait divers e, quiçá, fazer-nos rir. E touché, no sentido em que o concorrente fez uma leitura surpreendente da expressão francesa tornando-a “inglesada” (e um fait divers por si só), isto é, (lê-se) “fight daivers”. E porque não, já que a cultura também se expressa no delirante?  

Michel Houellebecq  é quase um paradigma do fait divers em tom blasé mas que se revela de carácter explosivo. É também este o seu engenho, o de um escritor-performer, de rija personalidade e dado a um mediatismo que ele suporta e talvez alimente por temperamento. Ouvi-o há dias numa conferência gravada de 2016, que ele deu na cidade brasileira de Porto Alegre, onde teceu críticas à cultura francesa actual, fosse na literatura, nos vinhos ou na gastronomia e nem Sartre escapou à sua revolta calma. Houellebecq não é um exaltado, é um calmo orador que diz as coisas mais desconcertantes, inquietantes, intoleráveis, verdadeiras também, que pode haver no meio literário. E não sei ainda se me revolte, o que é desde logo um começo. Houellebecq tem extensão para a sua indignação, com a vantagem de ser um homem culto, o que o torna ainda mais apetecível.   

Ainda há dias revi Déjeuner sur L’Herbe de 1863 do pintor Édouard Manet, numa das salas daquela que foi uma antiga estação ferroviária, transformada num museu a partir da década de 70: o Museu D’Orsay. E ainda hoje me espanto com o lado subversivo da obra – não se é subversivo impunemente, e não é subversivo quem tenta sê-lo; é-se subversivo. Insolente, trocista, onírico até, assim encaro aquele cenário de uma mulher despida e descontraída num piquenique, acompanhada de homens vestidos a rigor. Os pensamentos libertam as mentalidades? Manet foi longe demais na sua obra, foi o que se pensou. Concretamente…? A mulher despida ainda nos sorri, e os homens ainda falam com ela e o destaque dado à obra é total, no centro de uma parede.
Também eu represento aquela mulher, na consciência do despido e não no equívoco do rei que vai nu. Se há certeza que eu tenho é a de que irei sorrir durante largos tempos. Sorrir de quê, ao certo? Quando é que podemos começar a usar da revolta calma do Houellebecq?

Ali perto estão uns nenúfares de Monet, e como é respeitável o homem que se dedicou a pintar nenúfares. São também eles provocadores a seu modo neste mundo de complexas teias virtuais. Tudo o que é naturalmente contrário aos tempos é provocador per se. Ou tudo o que representa conflitos geracionais, tantos os que dominam a cultura portuguesa. Há um maior esforço em rejeitar a juventude do espírito. Por outro lado, algumas das crianças que conheço não gostam de se sentir ludibriadas, e que esperança isto me dá nesta outra espécie de humanidade que já anda por aí.

We were under the auspices of this new century when it was delegated to a television contestant the task of reading a piece of fictional news as part of a game. The news had a trap that seemed to want to test the contestant in his ignorance of the French and globalized expression fait divers and, perhaps, to make us laugh. And touché, in the sense that the contestant did a surprising reading of the French expression making it “anglicised ” (and a fait divers in itself), that is, “fight daivers”. And why not, since culture also expresses itself in the delirious?

Michel  Houellebecq is almost a paradigm of the fait divers in a blasé tone but that reveals its explosive character. This is also his ability, that of a writer-performer, of a strong personality and given to an exposure that he supports and perhaps feeds by temperament. I heard him a few days ago at a recorded conference in 2016 he gave in the Brazilian city of Porto Alegre, where he criticized contemporary French culture, whether in literature, wine or gastronomy, and even Sartre didn’t escape his calm revolt.  Houellebecq is not an exalted being, he is a calm speaker who says the most disconcerting, disturbing, intolerable, true things too, that there may be in the literary milieu. And I do not know yet whether I revolt myself, which is a beginning. Houellebecq has the extension to his indignation, with the advantage of being a cultured man, which makes him even more appealing.

Some days ago, I reviewed Déjeuner sur L’Herbe (1863) by the painter Édouard Manet, in one of the rooms of what used to be an old railway station, transformed into a museum from the ’70s: le Musée d’Orsay. And still today I am amazed by the subversive side of the painting ‒ one is not subversive with impunity, and it is not subversive who tries to be one; one is subversive. Insolent, mocking, dreamy even, so I face that scene of a naked and relaxed woman in a picnic, accompanied by men dressed in rigour. Do thoughts free minds? Manet went too far in his work, it was thought. Concretely …? The naked woman still smiles at us, and the men still talk to her and the emphasis given to this painting is total, in the centre of a wall.
I also represent that woman, in the consciousness of the naked and not in the ambiguity of that naked king. If there is certainty that I have is that I will smile for a long time. Smile at what, exactly? When can we begin to use the calm revolt of Monsieur  Houellebecq?

Nearby are Monet’s water lilies, and how respectable is the man who painted water lilies. They are also provocative in their own way in this world of complex virtual webs. Everything that is naturally contrary to the times is provocative per se. Or all that represents generational conflicts, so many that dominate the Portuguese culture.
There is a greater effort in rejecting the youth of the spirit. On the other hand, some of the children I know do not like to feel deceived, and what hope this gives me in this other kind of humanity that is already there.

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